Matéria avassaladora
Almir
Pazzianotto Pinto
O jornal O Estado prestou excelente serviço ao País com edição especial no sábado, 21 de março, de caderno dedicado ao Supremo Tribunal Federal (STF), sob o título Escândalos turvam a imagem da Corte.
O Caderno A1 estampa, sob o título
Desconfiança no STF atinge auge e chega a 60% após caso Master, fotografias dos
atuais dez ministros com os respectivos porcentuais positivos, negativos ou
abstenções.
O grosso da matéria vem no caderno especial,
com nutridas informações sobre o desempenho do STF e dos respectivos ministros,
destacando-se o texto subscrito pelo jornalista Wesley Galzo, intitulado
Mendonça tem melhor avaliação e Toffoli é o mais rejeitado.
O centenário Estadão é conhecido e respeitado
pela seriedade com que faz jornalismo. Ao publicar com detalhes a reportagem
escancarou a crise que já se vislumbrava, atingindo em cheio o Tribunal
conhecido também como Suprema Corte, responsável pela defesa precípua da
Constituição, como expressamente diz o artigo 102 da Lei Fundamental.
Segundo a detalhada matéria, a defesa da Lei
Superior não se encontra em boas mãos. Dos dez ministros pesquisados, nove têm
imagem negativa diante da opinião pública.
Dentre eles escapa apenas a pessoa do ministro André Mendonça, com 43%
de aprovação, ou imagem positiva, e 36% de rejeição, ou imagem negativa. O
ministro Dias Toffoli encabeça o rol dos reprovados, com 81% de rejeição e
apenas 9% de aprovação.
Conhecidos os fatos e examinados os números de
maneira cuidadosa, devemos concluir que a situação do STF, perante a opinião
pública, se tornou de algum tempo para cá desfavorável. Com 135 anos de vida, a
nossa mais alta Corte deveria servir de modelo para os tribunais inferiores,
pela conduta sóbria e comportamento exemplar dos integrantes. Talvez esteja eu
enganado, mas a transmissão de sessões pela televisão foi decisiva para que S.
Exas. perdessem a compostura, abandonassem o comportamento respeitoso e sereno,
passando a fazer da leitura dos votos, e de debates em plenário, espetáculos teatrais
de exibicionismo, incompatíveis com a conduta que se exige de magistrados.
O caso do Banco Master, com a figura mafiosa
de Daniel Vorcaro ocupando todos os espaços da mídia, acrescentou letal
ingrediente à crise do STF. A imprensa, sem exceção, passou a associar o
ministro Dias Toffoli ao personagem Vorcaro e suas ramificações. Impeachment
imediato de Toffoli é defendido por 49,3% (dos consultados), diz matéria
assinada por Hugo Henud e Juliano Galisi (Especial E6).
Não bastasse tudo isso, fatos indecorosos,
relacionados ao mesmo assunto, passaram a envolver esposas e filhos de
ministros, acusados de tráfico de influência, com arrebanhamento de clientela e
milionários contratos de honorários, em visível desacordo com o que se pratica
habitualmente no mercado.
O Brasil não deve e não pode ter o Supremo Tribunal Federal nas condições de desprestígio em que hoje se encontra. Os fatos são conhecidos e documentados. Não há como colocá-los em questão. Reputação ilibada passou a ser mera figura de retórica.
Pelo volume,
o caso do Banco Master é único na história. Não se conhece alguém que, como
Daniel Vorcaro, tenha ficado bilionário em tão rápido espaço de tempo, burlando
a fiscalização do Banco Central.
Embora 49,3%
dos entrevistados tenham se manifestado de maneira favorável ao imediato
impeachment de ministro Dias Toffoli, o problema não me parece tão simples assim.
Quem ocuparia a sua vaga? A indicação do substituto é prerrogativa exclusiva do
presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva. Para dizer o mínimo, S.Exa.
tem errado nas indicações. Tudo indica que continuaria a errar, fazendo
prevalecer os seus interesses, ou os interesses do seu partido, sobre os
interesses do Poder Judiciário e da Nação.
Todo esse
imbróglio seria evitado se o Senado Federal não se deixasse corromper, e
cumprisse rigorosamente o seu poder de fiscalização (Constituição, art. 101,
parágrafo único)
Advogado. Foi Ministro do Trabalho e presidente do Tribunal Superior do Trabalho.


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